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Estendal

Estendal

14
Set19

DEVANEIO EM MANHÃ DE VERÃO

Luso-brasileiro

Caminho tranquilamente, passo a passo, para os oitenta anos, e estou numa esplanada, à beira-mar, olhando o manso ondear das águas, do imenso oceano.

Longe, vejo o mar verde – verde glauco, – beijando suavemente as areias morenas; e mais além: barcaça, embrulhada em alva e diáfana névoa, esfumando-se rumo ao horizonte.

Por cima de tudo, rebrilha, esplêndido céu azul; azul intenso e fresco.

A manhã é macia, quase sem brisa, convidativa a doce sonolência.

Lentamente…lentamente…muito lentamente, dentro de mim, languidamente, tudo se vai esvanecendo…

Apaga-se o leve murmúrio embalador do oceano; o sussurro alegre de vozes perdidas, e risos escangalhados de crianças brincando.

Fecho os olhos. Abre-se, na memória, saudoso recorte do passado. Estampado na retina, vejo: cândido rosto de menininha:

Tem faces trigueiras, cor de pão centeio, tostadinho; olhos fogosos e ternurosos; lábios vermelhinhos, cor de cereja, cheios de risos festivos; epiderme, acetinada, doirada, sedosa, fresca, cheia de Sol.

Era ela; a garotinha que abria a porta da casa, quando era menino e moço.

Lançava os frágeis bracitos, ao pescoço; circundava-me, a cinta, com as perninhas roliças e finas; e, com infantil gesto carinhoso, lambuzava-me, as faces, de doces beijinhos.

Beijinhos húmidos, salivados. Beijinhos acariciadores, imbuídos de palavrinhas ternas, de sincera e ingénua amizade.

Depois…depois, pelo sombrio corredor, corria, balanceando a farta cabeleira, apanhada em rabo-de-cavalo, avisando, alegremente, a minha inesperada visita.

A saudosa cena familiar, que aflorou, arrancada à gaveta da memória, nesta serena manhã de Verão, encheu-me, o coração de terna saudade; saudade do passado, que passou, de passado, para sempre, perdido…; mas, intensamente, ainda vive, dentro de mim.

 

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Numa tépida manhã de Maio, banhada de morna luz rosácea, parti…As lágrimas escorriam-me pelo rosto, mal escanhoado, e a voz, embargada de saudade, tremia, soluçando.

Acreditava que o amor platónico, não teria fim…Enganei-me. Até a conversa epistolar, extinguiu-se, como nuvem passageira…

Meio século, passou… Passou a juventude e as ilusões…e passou, também, a amizade…

Eu sei… eu sei (mas, queria não saber,) que a amizade, depende, quase sempre, da idade, e da posição social, que se ocupa, no tabuleiro do xadrez da vida…

Muitas vezes – para meu mal, – mergulho em melancólicos devaneios, recordando amorosos episódios do passado. Transformo-os, então, em letra de forma. Servem-me para refletir: nos enganos e desenganos, que tive ao longo da vida.

Sei, ao passa-los ao papel, que são motivo de riso e galhofa, para insensíveis, e para muitos e muitas, que conheci no meu triste peregrinar.

Revelar o que nos vai na alma, é puro desconchavo. É que quem não pensa com a maioria; de acordo com o desvario, que é moda, é: anátema ou bobo….

05
Jul19

CONNOSCO É DIFERENTE !

Luso-brasileiro

 

Que alegria, que contentamento, que felicidade, se encontra estampado nos olhos da mãe, ao pegar, pela primeira vez, o recém-nascido! …

Ele é tudo, para ela. Quantas horas mal dormidas irá passar? Quantas horas de aflição? Quantas horas de angústia? Porque: o filho amado, está com: febre; não come: rejeita medicamentos; feriu-se gravemente, e chora de dor…

Mas, tudo passa, ao ver o sorriso inocente; o gesto de ternura; a gracinha comovedora do menino…

Deslumbrados com a maravilha – por eles criado, – amam-no de tal jeito, que darão a própria vida, para proteger, sua vida…

Assim, a criança, cresce, lentamente…Lentamente, cria laços de amizade: no infantário; depois na escola… mais tarde na vida…

E pouco a pouco, vai, com desgosto, verificando que os progenitores, não eram, como pensava: super-homens…

O adolescente, irreverente e desiludido, procura, agora, afastar-se. Além de “ignorantes”, os pais, ainda são retrógrados…velhotes, “coroas”…

Em desespero, a mãe, numa tentativa de o prender, encobre-lhe leviandades, paparica-o, e chora baixinho, para que o pai não a ouça… e não ralhe.

Mas a “criança”, agora adulto, tem ânsias de liberdade: libertar-se das amarras paternas… Mostra-lhes vontade imperiosa de navegar… de ser livre…

E, enquanto cresce, desenvolve-se, e se torna homem, os pais, envelhecem… Surgem-lhes as primeiras rugas e adiposidades indesejáveis; achaques próprios da idade; reumatismo; perdas de memória; enfim: chega a caturrice…

Cansado de cuidados e recomendações paternas, começa a censurá-los: o modo como vivem: hábitos antiquados, que os domina; tiques e trejeitos…

E os pais, sempre a envelhecerem… e a paciência do filho, sempre a esgotar-se….

Farto de escutar: velhos e conhecidos episódios; gracinhas de infância; e de os ver adormecer, diante da TV, e nos transportes públicos; de tanta rabugice e caturrice, a “ criança”, que tanto amaram, agora considera-os: dementes, incapazes; e passa a escolher-lhes: a roupa que vestem; a comida que comem; os remédios, que tomam; as horas de dormir e passear…

Apesar do coração paterno chorar tristemente de dor; e a alma continuar jovem… (em corpo velho); os progenitores, tudo perdoam… porque muito amaram…. E muito lhe querem…

Um dia – o dia sempre chega, – partem…para não mais voltarem…

Então, o filho, recorda com tristeza: tempos antigos; conversas e carinhos; conselhos mal ouvidos. E o coração constrangido, começa a chorar de saudade…

Só agora, repara, assombrado, que o seu próprio filho, que pensava ser diferente, porque educara-o com muito amor, está a percorrer as mesmas fases, que ele passou…

Isto é a vida! … A vida, que sempre se renova; mas que é sempre igual…

E nós que pensávamos, que, connosco, seria diferente! …

28
Jun19

OS VELHOS CONTINUAM A SER TRAPOS ?

Luso-brasileiro

 

Não é a primeira vez – e não será a última, – que abordo a situação desesperante dos idosos; mas, creio, infelizmente, que ninguém se preocupa com a velhice e seus problemas.

Se faltam alojamento, a preços módicos, a estudantes, o que se faz? Transformam-se quartéis, em lares; e, os conventos vazios, levam o mesmo destino…

Mas, o que faz a sociedade e o Estado, aos idosos?

O mesmo que fez o filho da velha e tradicional história:” Filho és Pai Serás”…

Todos conhecem, que a pobreza, não diminuiu; caso contrário, não haveria tantos a pedirem, na via pública; à porta dos templos; e a dormirem em vãos de estabelecimentos…Nem peditórios, para: Associações e Fundações… e recolha de alimentos, à porta dos supermercados.

Pensa-se aumentar pensões? Pensa-se fornecer, à Classe Média, recursos para quando a velhice lhes bater à porta, permita recolherem-se a lares decentes, a preços compatíveis às reformas?

Pensa-se adaptar casas e quartéis, a lares para idosos, da Classe Média? Não; ou penso que não. Só se pensa na pobreza infantil – como se a pobreza fosse das crianças, e não dos pais.

Pensa-se, também: legalizar, drogas leves e eutanásia – para libertar camas hospitalares?

Que sociedade cristã e humanista, é esta, que deixa os pais e avós, abandonados, com suas mazelas e dificuldades?!

Ao abordar o assunto, não o faço por mim, ou pela minha família. Felizmente, tenho, por agora, o bastante para meu conforto; mas por milhares de idosos, que não têm voz, nem quem os defenda.

É triste, que se pense na imigração – porque a população está envelhecida, – e não se cuide dos nossos maiores, que não têm culpa de viverem tanto… devido ao progresso da Medicina.

Para quando o aumento das pensões, da Classe Média? Para quando será a inauguração, nas principais cidades, de Casas de Repouso, para os nossos idosos, com dignidade e direito à privacidade, a preços acessíveis?

Ou espera-se, que esta geração – sacrificada por uma guerra, – desapareça?! …

14
Jun19

LER MUITO OU LER POUCO ? O QUE NOS DIZEM CONHECIDOS INTELECTUAIS

Luso-brasileiro

 

Acabara de chegar a Florianópolis, vindo de São Paulo, quando liguei o aparelho de televisão.

No ecrã, surgiu a imagem de conhecido político, que estava a ser entrevistado, em sua casa.

A determinado momento, a cordial conversa, resvalou para a necessidade das figuras públicas, conhecerem tudo, que se edita, de interesse, no país.

Animado pela amena conversa, o político, convidou o entrevistador, a visitar a sua biblioteca.

Era uma vasta sala, com duas janelas de guilhotina, pintadas a branco. As paredes estavam forradas a estantes de cor negra, repletas de livros, quase todos encadernados.

Ao centro da quadra, encontrava-se, antiga e pesada mesa, de pé-de-galo, envernizada. Pendente do teto de estuque,havia vistoso lustre de vidrinhos de várias cores.

Dispersos, pela sala fauteuis, estufados a azul, e espreguiçadeira de palhinha. Assim se resumia o sóbrio mobiliário daquela livraria, de milhares de volumes.

De ar doutoral, o entrevistado, passava orgulhosamente as pontas dos dedos, pelas lombadas, à laia de tocador de reque-reque, informando:

- “Aqui, tenho tudo sobre economia!; ali, os livros de Direito!; acolá, encontram-se as obras completas dos nossos principais escritores!…”: e por ai adiante….

De boca escancarada de espanto, o atónito jornalista, olhava assombrado, as filas intermináveis de livros, todos perfilhados, todos alinhados, como soldados em parada.

Possuir grande biblioteca; comprar livros a metro, é sinal que se é culto?!

Claro que não. Que impressiona as turbas, e faz bem ao ego do vaidoso, não duvido…Jacinto, do Eça, possuía trinta mil volumes… que nunca os lera…

 

Deve-se ler muito ou pouco?

 

Sertillanges, recomenda moderação na leitura, porque: “ A leitura desordenada, não alimenta, entorpece o espírito. “ (A Vida Intelectual)

 

E o célebre Jean Guiton, é do mesmo parecer: “ Levado ao extremo, não se havia de ler senão um único livro, na vida.”

E acrescenta: “ Convêm ter sempre à cabeceira, aqueles que a qualquer momento, nos podem proporcionar um conselho.”

 

Assim fazia Camilo – Mestre dos Mestres, segundo Vasco Botelho do Amaral, – que, nas suas andanças, acompanhava-o, sempre, a “biblioteca de campanha”.

André Mourois, em: “ Carta Aberta a um Jovem”, após recomendar os clássicos, declara: “ Sugiro-lhe uma biblioteca de campanha, reduzida a sete escritores: Homero, Montaigne, Shakespeare, Balzac, Tolstíi, Proust, Alain. No dia em que os conhecer perfeitamente, quero dizer, até ao pormenor, você será um homem culto.”

 

Todavia, Inace Leep, na: “ A Arte de Viver do Intelectual”, diverge, em parte, desse parecer. Referindo-se aos jovens, escreve: “ Não vejo qualquer inconveniente em que um jovem amador de literatura, leia, desordenadamente, quase tudo: romance de todos os géneros, biografias, história e geografia, divulgação científica e mais tarde, obras de filosofia e teologia. Um certo ecletismo não só é lícito como também muito desejável num primeiro estádio do desabrochamento intelectual.

“Quase todos os intelectuais com quem tive ocasião de falar a este respeito dizem ter seguido este processo e ter lucrado muito com ele. O único critério de seleção, sobretudo no que respeita às obras literárias, deve ser o valor artístico.”

Mas…na mesma obra, diz: “ Não é por ter lido muito e saber muitas coisas, que se é um intelectual autêntico. Importa ainda saber julgar o que se leu e aprendeu, viu ou ouviu.”

 

Azorin, considera, também, que a leitura é inútil, se não houver meditação, sobre o que o livro nos diz:

“ No se medita en el mundo moderno. Hay muy pocos hombres que se plazean en la meditación; sin la meditación (…) faltará la perspectiva espiritual, esa segunda realidade que, a su vez, hace meditar al lector de un libro.” – “ El Escritor”

 

                    Mais adiante, Inace Leep, em: “ A Arte de Viver do Intelectual”, recomenda a escolha de um mestre, advertindo:

“ O homem de um só livro é facilmente sectário (…) também é muito perigoso ser-se discípulo de um só e único mestre.”

“ Dedica-te ao mestre que escolheres, com afeto, sim, mas sem fanatismo ou exclusividade.”

E noutro passo, recorda o prazer de reler: “ Chegará o dia, Daniel, em que também experimentarás a sensação de aprender mais, relendo os mesmos livros, ainda que poucos numerosos, de grandes mestres, do que lendo as últimas novidades de livraria.”

 

Se os livros, em regra, se repetem, para quê ler muito? Não será melhor, buscar na densa floresta dos livros, os que nos agradam: pelo estilo e pelo tema?

Montaigne, passava dias, até meses, sem abrir um volume…folheava-os; lendo trechos ao acaso. (Ensaios)

Para pensar e raciocinar bem, é imprescindível, ler grandes pensadores. Porque baseamos os nossos pareceres, no que disseram os outros: no presente, e no passado.

Ler obras fundamentais, que são as que alimentam o espírito, e as que nos fazem pensar, deve ser o nosso guia.

 

Karl Jaspers, aconselha: Não Convém ler muito e variar constantemente de leitura; deve-se sobretudo, aprofundar fielmente as obras capitais  -  "Iniciação Filosófica".

 

Livros há, que despertam interesse na adolescência, e são indiferentes na idade adulta. Cada idade tem sua leitura.

Há ensaios magníficos, que merecem ser lidos; mas, não são facilmente digeridos, por falta de preparação. Melhor é ler autores mais acessíveis, do que tentar assimilar os herméticos.

Os clássicos, são sempre recomendáveis. Eça, lamentava-se, de só muito tarde os ter descoberto.

As obras indicadas pelos críticos e editores, podem não ser – a meu ver, – as melhores. Por vezes são até contraproducentes, culturalmente e moralmente. O que é bom, para eles, pode não ser para nós…

Ser leitor de um só autor, ou de um só livro, também, não me parece recomendável, para não se cair nos “ vícios” do escritor; a não ser que seja a Bíblia: que não é um Livro… mas muitos…

Em suma: punhado de livros, bem escolhidos, é melhor que vasta biblioteca, que raramente é lida… e, quase sempre, serve apenas, para engalanar estantes.

Os pareceres exprimidos nesta crónica, foram baseados em reconhecidos pensadores, do século XX. Servem apenas de orientação. Cada um deve escolher o método, que for melhor para si.

Meu, só há o mérito – se é mérito, – de ter feito de abelhinha, colhendo as opiniões, de reconhecidos intelectuais. Nada mais.

13
Abr19

A INFANTILIDADE DO POVO

Luso-brasileiro

 

                  Admirava-se Demóstenes, que a multidão, delirasse ao escutar marinheiros ignorantes, que subiam à tribuna, e não ouvisse, com o mesmo entusiasmo, seus discursos, que eram literariamente perfeitos.

                  Ao lamentar-se a ator, seu amigo, este disse-lhe: para recitar poemas de Eurípedes ou Sófacles.

                  Demóstenes recitou alguns poemas Em seguida, Sátiro, declamou, e nem pareciam os mesmos….

Desde então, Demóstenes, convenceu-se: que para seu ouvido, com entusiasmo, não bastava construir bem as frases; mas, era necessário falar com convicção e ardor.

Isolou-se num subterrâneo, para que não fosse ouvido, e metendo seixos, na boca (era um pouco gago,) lia e discursava para as paredes.

E nunca mais deixou de cuidar da forma como se exprimia; acompanhando os discursos com gestos, e diferentes intuições.

Certa vez, estando a tratar assuntos de Estado, aos atenienses, verificou que pouca atenção prestavam.

Aproveitou o momento para demonstrar, que o povo não passa de criança-adulta, principalmente quando está em multidão.

E, interrompendo a importante dissertação, disse-lhes:

- “Lembrei-me, agora, de caso, e vou contar-vos, antes que o esqueça”.

Todos os olhos se cravaram no orador.

- “ Um homem alugou um burro, para ir a Atenas. O dono do burro acompanhava-o a pé. O calor era diabólico. Não havia sombras. Tudo fervia. Então, o homem, desmonta, e senta-se na beira da estrada, à sombra do burro. O dono do burrico, que sufocava de tanto calor, protestou, dizendo: “ Aluguei o burro, e não a sombra!”. Retorquia o outro, argumentando: “ Alugando o jerico, aluga, também, a sombra dele! …”

Demóstenes, suspendeu, com elegância, a capa, e desceu do púlpito.

A multidão reclamou, excitada:

- “ Queremos ouvir o resto da história! …”

Mas o orador, voltando-se para aquele mar de gente curiosa, rematou:

-” Para vós é mais importante a história de um burro, o que os negócios de Atenas! …”

Esta perícope, lembra-me o povo do nosso tempo: escuta com mais atenção o corrupto, o ambicioso, do que o virtuoso, cuidador do bem da Nação.

O povo não passa de criancinha, de memória curta; de cata-vento, que vira, consoante sopra a última brisa.

Sempre foi assim, e assim será… porque não há nada mais volúvel, que o ser humano.

13
Abr19

O QUE É CULTURA?

Luso-brasileiro

 

Dizia, certa vez, alguém, cujo nome já não me recordo, que: Cultura, é o que resta, depois de tudo se ter esquecido.

É a essência, que permanece da: educação, que recebemos; dos costumes; tradições e valores, que alicerçam a sociedade, em que estamos inseridos.

Saber: é ter conhecimento de certa matéria ou determinado assunto. Cultura: é o sumo de vários conhecimentos, que foram “ esquecidos”, ao longo da vida e servem para: pensar, criticar, raciocinar… e escrever.

Nem só o académico, que frequentou a Universidade, se pode dizer que é culto; o ignorante, o humilde trabalhador do campo, pode ser sábio, e ensinar-nos muito, que empiricamente foi adquirindo, por experiência própria ou recebida dos seus maiores.

Muitas vezes, a gente rude, são verdadeiros livros abertos, no modo como se exprime, e na vernaculidade dos termos que emprega.

Cultura e liberdade, andam de mãos dadas. Não pode sobreviver a cultura de um povo, se o invasor, impõe: religião, língua, tradições, valores da sua civilização.

Antigos conquistadores, conheciam que o modo eficaz de dominaram um povo, era inculcarem: costumes e tradições alheias, ao longo dos anos.

A lavagem cultural, pode ser pela violência (decreto); ou levá-lo a aceitar, por imitação ou complexo de inferioridade.

Foi o método usado pelos europeus, na época dos descobrimentos. Pelos romanos, ao expandirem o Império; e, segundo parece, o processo, que certos lideres muçulmanos pretendiam fazer, de modo pacífico, primeiro ao Ocidente, depois ao Oriente.

A globalização acelera o fim da cultura característica dos povos, criando a mestiçagem da cultura, e fomentando a mobilização, e a perda de identidade dos povos.

É, porém, verdade, que a amálgama de tradições e costumes, enfim, da cultura de vários povos, enriquecem os países; mas, também, é verdade, que os descaracteriza.

Cada povo tem sua cultura, seu modo de pensar e agir, transmitidos de geração a geração. A globalização, lentamente, vai igualando, impondo aos povos mais fracos, a perda de identidade; acabando assimilados.

Perseverar a língua, é defender a cultura de um povo.

Em “ A Correspondência de Fradique Mendes”, Eça, depois de afirmar que :” Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade”, exprime a opinião sobre o poliglota: “Nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo.” (*)

Infelizmente, a língua portuguesa, tem sofrido tantos saltos de polé, enxertada de tantos estrangeirismos, tão desprezada, pelas figuras públicas, inclusive a classe politica, que anda mais remendada, que capa de pedinte, como dizia o nosso clássico.

Na época de Eça, éramos “ colonizados” pela França. Para se ser considerado culto, era necessário conhecer a língua francesa.

Tudo vinha de Paris: a moda, a ciência, a arte…e até os janotas da alta-sociedade, iam, à Capital da Luz, buscar noiva! …

Agora, tudo nos chega da terra do Tio Sam: os costumes, tradições, as ideias…; até a nossa língua sofre – e de que maneira, – com a subserviência…

 

 

(*) – Edição de Lelo & Irmão, Porto,1960 – Pág. 128

13
Abr19

TER NOME, É O QUE INTERESSA

Luso-brasileiro

 

Naquele fim de tarde de Verão, de 1971, estava na livraria Figueirinhas, na companhia de meu pai, folheando as últimas novidades, expostas nos escaparates.

O Sr. Ferreira, chefe de balcão, passou por nós, cumprimentando-nos efusivamente:

- “Lindo dia! …Hem!?” – Perguntou, de semblante risonho.

Afirmativamente, respondemos:

De súbito, aproximou-se o Sr. Fernando Figueirinhas – sócio da firma, – cumprimentando-nos apressadamente, estendendo a mão:

- “ Sr. Pinho da Silva, gostava de conhecer, pessoalmente, António Lopes Ribeiro?!”

 Antes que meu pai respondesse, acrescentou:

- ” Está no meu gabinete. Venha dai! …”

Meu pai acompanhou-o, e eu, fiquei a conversar com o Sr. Ferreira, que me revelou: que o cineasta tinha vindo negociar o seu novo livro: “ Anticoisas & Telecoisas”.

Em breve, caminhavam em minha direcção; meu pai, e o apresentador do programa: “ Museu do Cinema” – popular rubrica da RTP.

Pararam junto de mim. Conversavam animadamente, sobre teatro e da obra que o realizador de cinema, ia publicar.

A determinado passo da conversa, meu pai, interrompe, para interroga-lo sobre o Maestro António de Melo, tratando-o por Sr. doutor.

António Lopes Ribeiro, recurvou-se ligeiramente, e pedindo desculpa, disse-lhe:

- Ó Sr. Pinho da Silva, vou-lhe pedir um grande favor: não me trate por doutor! …Eu tenho nome! …Chame-me António ou António Lopes Ribeiro. Sabe?: só é doutor, quem não tem nome…Já reparou: aos grandes homens, ninguém os trata por doutor?! …”

Meu pai concordou, sacudindo afirmativamente a cabeça. Quem chama de doutor: Egas Moniz ou Carrel?

A conversa terminara. O cineasta estava com pressa. Tinha compromissos inadiáveis, e retirou-se, desaparecendo entre a multidão dos transeuntes da Praça.

O Sr. Ferreira, que tudo ouvira, ainda ficou a remoer nas palavras que escutara:

- “ Na verdade, ninguém trata por doutor, os grandes homens da ciência! Não é verdade ?!…; Sr. Pinho da Silva?…”

18
Mar19

O TRANSMONTANO ANALFABETO

Luso-brasileiro
 

Casal amigo, recentemente vindo do Brasil, que anda a viajar pela velha Europa, ao passar pela minha cidade, quis visitar-me, e convidou-me para encontro num hotel do centro da cidade.

Conversamos sobre a situação politica no Brasil e da América Latina, mormente da Venezuela; e a determinado momento, a conversa descambou para o facto de todos quererem ser europeus.

Foi então que narraram a curiosa história, do transmontano, que certo dia, abandonando sua aldeia, partiu para o Rio de Janeiro. Levava consigo a esperança de vir enriquecer, nesse imenso Brasil, onde se contava, que havia a árvore da pataca: bastava abanar… e o dinheiro chovia…

Desembarcado em terras de Vera Cruz, logo verificou, que para sobreviver, teria que trabalhar duramente; e a famosa “ árvore” só existia na imaginação de “ poetas” excêntricos.

Empregou-se num empório. O dono da casa era rude e pouco amável para os gringos, mormente portugueses.

De tanto se ver desprezado, transformado em palhaço pobre de circo pobre, pelo facto de ser português, resolveu, quando conseguiu disfarçar a pronúncia, esconder a nacionalidade.

Se sofria com a chacota que faziam aos patrícios?

Lá isso sofria…Debochavam, que vinham: “ de pau e saco às costas”; e com o aparecimento da TAP, de ” Tamancos Aéreos Portugueses”, e outros chispes, que a rádio, e mais tarde a TV, lançavam para gáudio de muitos. Mas sofria calado…por medo e vergonha.

Casou. Teve filhos e filhas. A vida melhorou. Comprou casinha… e ele, sempre ruído pela saudade da sua terra, ia-se conformando, não só com a nacionalidade, mas com a indiferença e desprezo dos filhos.

Prosperados com o trabalho paterno, frequentaram o Ensino Superior; se não tinham vergonha, evitavam, acintosamente, a companhia do pai. Homem inculto, que mal sabia ler, e ainda menos escrever, que trajava modestamente, e trabalhava como galego.

Mais tarde, os netos e bisnetos, nem o iam visitar – diziam que os afazeres não lhes permitia, – “ Para quê?!”: Era velho, pobre, rude, analfabeto…E agradeciam ao pai, não os ter batizado com apelido português. Hoje podiam usar nomes com “Y's”, “W's”, e letras dobradas. Era chique e dava status.

Um dia, o transmontano, morreu. Foi sepultado em vala comum, quase como indigente, em caixão modestíssimo, e sem acompanhantes.

A família não queria que se soubesse que o antepassado fora daqueles que desembarcaram de: “ trouxa de roupa e cajado, que lhe servia de bengala…”

Passou o tempo…Passaram décadas…Portugal aderiu à U.E. ; mais tarde ao euro. Agora dizem:” Estão ricos!!! …Ganham em euros!!!...””

Os netos e bisnetos, do velho e pobre transmontano, lembraram-se, então, dele, e pensaram: “ - Agora podemos lucrar pelo facto de sermos descendente, desse antepassado! …”

“Mas como?! …”

- “ Nem conhecemos donde era! …Trás-os-Montes é grande! …”

Então, rebuscaram velhos e revelhos documentos. Escreveram a padres e Juntas de Freguesia. Buscaram amigos e parentes; e até um neto percorreu o distrito de Bragança, com foto do agora “ querido” avozinho, e palavras sentimentais…, na esperança que alguém fornecesse alguma dica.

Já não dizem: que andara de “ Tamancos Aéreos”; e invejam, até, os que já obtiveram o almejado cartão, que lhes permite serem cidadãos europeus; crentes que não lhes vai acarretar problemas, dissabores e despesas futuras.

Se o velho transmontano, no outro mundo, poder conhecer o que se passa neste, há-de rir-se, em grande risota, com outros gringosanalfabetos, que envergonhavam a família, por serem: italianos, portugueses… europeus analfabetos…

Assim rematou aquele casal, que sempre se orgulhou das suas origens, e sempre frequentou e procurou o convívio de patrícios, em associações e clubes, indiferentes à chacota e ao ridículo, que muitos (netos e bisnetos de portugueses e italianos,) lançavam sobre aqueles que se orgulhavam dos avós: Homens honrados, humildes e trabalhadores exemplares.

18
Mar19

NADA ACONTECE POR ACASO

Luso-brasileiro
 

Você acredita no acaso?

Pensa que as pessoas, que cruzou e cruza, na jornada deste mundo, surgiram por acaso?

Se respondeu afirmativamente, tenho que lhe dizer: muita boa gente, figuras notáveis, estão convencidas que nada acontece por acaso.

acaso, só existe: na lotaria, no totoloto, nos jogos de azar; e mesmo assim, há quem duvide…

 Para os cristãos, esses encontros, têm a Mão de Deus; para os não crentes: são coincidências ou casualidades.

O sucesso, a fama, o prestígio, não surgem por acaso: é o resultado de grande esforço, ambição, e trabalho persistente e constante.

Para haver sucesso, é necessário haver gosto pelo que se faz; possuir ideal, seja: político, financeiro ou religioso.

E sobre tudo: força de vontade, e nunca desistir, mesmo quando parecer que tudo e todos, se opõem.

Se você não é um génio – nem nasceu no seio de família, que lhe facilite o sucesso, – o desenvolvimento da aptidão nata, torna-se bastante difícil.

O sucesso na vida, começa: com a educação que recebeu; a localidade onde vive; a sociedade que está inserido; e nos amigos que possui.

A genialidade ou as aptidões, raramente passam de pais para filhos; mas sim: os valores; os princípios; as normas que se inculca à prole, influenciam, determinantemente, o futuro.

Até a cultura se assimila quase por osmose! …

Mas nada disso o tornará homem de sucesso; o sucesso, depende, principalmente, de si: das atitudes e dos caminhos que seguiu e segue.

Dizem: “ Por trás de um grande Homem, há sempre uma grande Mulher”, e é verdade. O sucesso que o indivíduo obtém, depende, quase sempre, do matrimónio que realizou.

Mas, como nada acontece por acaso, para alcançar carreira de sucesso, necessita de buscar “ Padrinho”. Se o não encontra entre os familiares, tem que ir em demanda de um.

Para isso tem que se pôr ao serviço de alguém ou de causa, que pode ser: política, desportiva ou humanitária.

 Começa a servir, e (se for ambicioso e astucioso,) termina a servir-se…

Os simplórios, é que acreditam que o sucesso é fruto: do acaso, de golpe de sorte, ou apenas de intenso trabalho.

Para atingir posição de prestigio, além de: inteligência, ambição e vontade, é preciso o apoio de alguém.

Que raras vezes presta ajuda… sem esperar algo em troca.

Basta ler biografias de homens notáveis, para constatar, que, na maioria dos casos, há sempre (pelo menos no inicio,) na sombra, figura protetora, de quem estendeu a mão, para alcançar a vereda vacilante da carreira de sucesso.

Primeiro, é preciso conhecer: se é possível, com as aptidões que possui, atingir o pretendido: - Não esquecer o Violino de Ingle.

Depois… partir em demanda de “ Mecenas”. Sem eles, é como disse o Presidente da República, Jorge Sampaio, referindo-se à própria carreira política:

“ Nunca fui da Maçonaria, da Igreja ou de qualquer grupo económico. Chegar onde cheguei, nestas condições, é obra. Porque é muito difícil ser independente em Portugal… “- “Única” - citado pelo Jornal de Tondela, 31/08/06.

18
Mar19

COMO É FEITA A OPINIÃO

Luso-brasileiro
 

Certo politico – que dizem ser o pai da democracia portuguesa, – proferiu, certa vez, frase (que não era sua) que ficou célebre: “Só os burros é que não mudam!”

Assim é; mas será que a maioria das pessoas têm opinião ou sabem o que é ter opinião?

Creio que não: porque os pareceres mudam, consoante: os momentos, os interesses e a opinião do “ clube”, que estão inseridos.

Vejamos: Qual é o militante, que pretende ascender a cargos – remunerados ou não,-  do seu partido, que se atreve a discordar do líder, quando este está em plena ascensão?

Poucos ou nenhuns. A opinião do militante, é, salvo raras exceções, a mesma do chefe.

Uma vez o líder em queda, surgem, então, os pareceres, as discórdias; e poucos o defendem, mesmo os que meses antes se batiam heroicamente a seu favor.

Também o critico da moda – literário ou teatral, – ao escrever o comentário, tem o pensamento na “ capelinha” que o apoia, que não lhe perdoaria critica negativa, a camarada.

O escritor é excelente ou medíocre, conforme o grau de amizade, ou por haver tratado tema, que agrada a certa feição, seja: politica, religiosa ou desportiva.

Sejamos francos e honestos: a obra pode ser excecional, o autor um génio, mas se os ideais defendidos são contrários ao nosso ponto de vista, a obra é: má, ou: assim, assim.

Para o homem da esquerda, só tem valor o que pensa como ele; e o mesmo acontece, quase sempre, ao que milita em partidos de direita.

Mas, o que é afinal, ser de direita ou de esquerda?

Há homens de direita, que pensam e agem, como se fossem de esquerda; e há de esquerda, que quando agem, enquadram-se até na extrema-direita!...

 Uma coisa é vê-los falar; outra, são as obras…

É que a escolha de ideologia ou partido, é feita, muitas vezes, por razões sentimentais ou conveniências…

Já repararam: se futebolista joga num clube rival ao nosso, as atitudes incorretas, taxamo-las de: "indisciplina" e "má educação"; mas, se o nosso clube, contrata-o, passam a ser: “nervosismo…”, ” ter o coração junto da boca”…

Sabemos que é assim; mas as massas não sabem; e como são incapazes de raciocinar sem a muleta do crítico ou comentador, seu parecer, é o que está em voga, ou o que seu jornal defende.

E está em voga, porque, minoria, bem organizada, com poder, domina a mass-media, e interessa-lhe que o Senhor “A” seja uma sumidade, e que o Senhor “B“, burro chapado ao quadrado! …

E, as massas acéfalas, em rebanho, engrossam as manifestações e os abaixo assinados, convencidas que pensam, mas não pensam…E mal é quem lhes diga isso…

E assim, o povo, não passa de bonequinho de marioneta: salta, canta, chora, ri, aplaude, censura, grita, berra, sem se aperceber, que é comandado por cordelinhos invisíveis! …

 

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